Friday, July 16, 2021

Friends always become enemies if you wait long enough

 John Giorno, portentoso, em "Poetry in Motion" (Ron Mann, 1981).




Wednesday, June 23, 2021

Aquela vez em que um puro impulso me levou a traduzir uma letra do Berman, demorei dez minutos, e quase dez anos depois ainda me parece que ficou bem.


Estou bêbedo num sofá em Nashville

num duplex perto do reservatório

e cada simples pensamento parece um murro na cara

sou como um coelho a enregelar numa estrela


No lado errado do domingo de manhã

despedaçado pela luz terrível

a trabalhar para um circo falido

no lado errado de sábado à noite


E quero ser como água se puder

porque a água está-se a marimbar

a água está-se a marimbar


Perseguido por um cutelo flutuante

não basta pores-te aos tiros para saíres daqui

podia dizer-te coisas sobre este papel de parede

que nunca nunca nunca quererias saber


Mas há uma alternativa no vale

para as coisas e o que elas são nelas próprias

e o triunfo do obstáculo

e suásticas feitas com pernas de cavalos


Quero apanhar boleia nas costas de um colibri

até ao número mais alto

até ao número mais alto


E quero ser como água se puder

porque a água está-se a marimbar

a água está-se a marimbar

Sunday, June 13, 2021

É perfeitamente natural e compreensível que o bom cidadão, aquele que utiliza e frequenta as "redes sociais" para diariamente manifestar a sua violenta oposição às coisas más e o seu fervoroso apoio às coisas boas, encontre dificuldades na hora de escolher uma equipa para apoiar no Euro 2020. A pensar nele, preparei um pequeno guia, que espero que facilite essa árdua escolha:

Bélgica – Burocratas, affair Dutroux, uma vergonha o que fizeram no Congo, e o Vlamandsblok é fascista. Por outro lado, equipa multicultural, e o Lukaku. Hipótese a considerar, à falta de melhor.

Itália – Nah. Inventaram o nacionalismo moderno. Mussolini, Salvini. Relação ambígua com a “crise dos migrantes”. Mafia, Berlusconi, país precursor da diluição de fronteiras entre o underground criminoso e a superfície de respeitabilidade política.

Rússia – Nem pensar. Do Mal Absoluto quer-se distância.

Polónia – Fascistas.

Ucrânia – Fascistas.

Espanha – Tourada, monarquia, Vox. Fascistas, no fundo.

França – Caso complicado. Imperdoável que de 7 em 7 anos nos deixe em ai Jesus que lá vêm os Le Pen. Chauvinistas, antipáticos, o Macron é um sonso. Como a Bélgica, equipa multicultural, mas, como a Bélgica, um multiculturalismo conseguido à custa da pilhagem colonial de recursos humanos. Há-de haver melhor.

Turquia – Erdogan. Nem pensar.

Inglaterra – O Brexit, o Boris. Churchill e outros racistas. Imperialistas. A família real mais cretina da Europa. Passar à frente.

República Checa – Depois do Havel ninguém sabe muito deles, na verdade. Mas parece que já fizeram umas fitas na CE e tiveram um presidente que mandou bocas islamófobas. À cautela, não.

Finlândia – o povo mais simpático da Europa, mas aquilo dos Verdadeiros Finlandeses é esquisito. Bebem muito e são muito brancos. Não.

Suécia – Liberalíssimas políticas de imigração, que lhe valem ser o pet hate da extrema direita mundial. Não se fazem falar muito, excepto quando há chatices com o Nobel, e no fundo ninguém sabe muito bem o que lá se passa. Hipótese a considerar.

Croácia – Fascistas.

Áustria – Ui, país onde nasceu o Hitler. Tem sempre fascistas no governo ou à volta dele. Fascistas.

Holanda – Arrogantes que roubam os impostos dos outros países e depois se queixam de que têm que pagar as contas deles. Já ninguém se lembra de quando se louvava Amesterdão Global Village, parece que foi há mil anos. Não.

Alemanha - Há dez anos seria hipótese imediatamente excluida, mas hoje já não representam o neo-imperalismo económico, antes um bastião da decência democrática à antiga. Tem muitos fascistas, mas o cordão sanitário à volta deles tem funcionado. Equipa multicultural. Forte possibilidade.

Portugal – Um poço onde se cai, um cú de onde se não sai. Não.

Suíça – O ouro dos judeus, as contas numeradas, a Nestlé. Bancos. São escorregadios como enguias e chamam a isso “neutralidade”. Não.

Dinamarca – Uma espécie de baldio entre a Holanda e a Suécia. Não se metem em complicações. Abriram as fronteiras aos refugiados. São simpáticos. Sem exuberância, boa hipótese.

País de Gales – Súbditos dóceis do imperalismo inglês. Não ameaçam com a independência. Não.

Macedónia do Norte – Roubaram o nome aos gregos e pouco mais se sabe deles. Ninguém faz ideia de como é Skopje e do que é que lá se passa. Tiro no escuro.

Hungria – Orban, não é preciso dizer mais nada. Passaram de fascistas a comunistas e depois a fascistas outra vez.

Eslováquia – Granjearam simpatia quando os checos se livraram deles por serem demasiado pobres, mas já ninguém se lembra disso. Como todos os pequenos países da Europa Central, ardentemente nacionalista. Não.

Escócia – Falam grosso aos ingleses, e semana sim semana não ameaçam com referendos e independência. Praticam o cross-dressing descomplexadamente. Tão boa hipótese como a Alemanha ou a Suécia, e nenhuma das desvantagens, e por isso a mais recomendável.


Claro que há sempre a possibilidade de escolher uma equipa apenas pelo grau de atracção do futebol que pratica. Mas esse costume - escolher as coisas pelas coisas - era muito praticado pelos bárbaros do século XX e é totalmente desajustado ao tempo das "redes sociais". Não se aconselha, portanto.


Monday, May 17, 2021



Não consigo evitar uma crescente irritação com o moralismo pueril do Facebook, de cada vez que o abro levo com trinta lições sobre assuntos que tenho como resolvidos há décadas. Não sei quando é que o FB começou a despertar a vocação professoral das gentes, nem quando é que se tornou um misto de grupo de apoio, tribunal popular e programa de educação de adultos. Sei que, com poucas e prezadas excepções, a maior parte está lá para se ouvir a si própria, e pouco espaço resta para quem queira, só, ouvir uma canção, e depois lembro-me de que isso - partilhar canções - foi a razão por que aderi ao FB. Felizmente há outros lugares, mais calmos, mais solitários.

A propósito, é muito bonito este album de tributo ao Berman.








Thursday, January 15, 2015





















Filmes de aviadores (e não necessariamente "de aviões", que nos filmes que vou citar até se vêem pouco) foram nos anos 30. A grande rima é entre o "Last Flight" do Dieterle, no princípio da década (1931), e o "Only Angels Have Wings" do Hawks a fechá-a (1939). Apesar dos voos, são ambos filmes sobre aviadores em terra, todos um bocado queimados, literal e metaforicamente. E há um rima interna, muito directa, pouco me importa se fortuita, concentrada nas personagens de Richard Barthelmess, o actor mais triste do mundo, que está nos dois filmes: no "Last Flight" uma ferida nas mãos impede-o de segurar no copo como os outros; no "Angels", perto do final, uma ferida nas mãos impede-o de segurar no copo como os outros.

Friday, January 09, 2015

Froken Julie

Que coisa insípida, a "Miss Julie" da Liv Ullmann (estreia para a semana), tão escolar como uma peça encenada por um grupo teatral de liceu (com a diferença de que numa peça encenada por um grupo teatral de liceu haveria mais entusiasmo).

Ofereço-vos a bastante esquecida, mas ainda surpreendente 64 anos depois, versão Alf Sjöberg da Froken Julie:


Tuesday, December 30, 2014

Anatomia do atavismo


Fotograma de Cat People, Tourneur.

Luise Rainer, 1910-2014

A extraordinária longevidade não se coaduna com o estrelato tão episódico nem com uma filmografia que, apesar dos óscares, não deixou nada de muito especial. Mas disso Luise Rainer, que só andou por Hollywood basicamente enquanto quis andar, não deve ser culpada.


(em 1939, em Paris, fotografada por Robert Capa).