É espantosa a sofreguidão masoquística com que as brigadas do politicamente correcto devoram o isco, o anzol e a cana. Pode-se sempre contar com elas, nunca falham. Não espanta a azia permanente. Mas os reflexos condicionados aborrecem: your kneejerks are quicker than your minds.
O Sr. Paulo Côrte-Real é por certo uma person@lidade extremamente respeitável, ou não fosse exímio a falar de rácios e percentagens. Eu de rácios e percentagens percebo pouco e interesso-me ainda menos. Gosto de falar de filmes, de cinem@, de realizador@s e de actor@s. Não é, garanto, um interesse menos digno do que o do Sr. Paulo Côrte-Real, nem faz de mim menos respeitável. Mas é, parece-me, o que mais me afasta dele: é que eu acho profundamente ofensivo, para a Bigelow e para o filme da Bigelow, que tudo se reduza a rácios e percentagens. É-me indiferente se o Oscar da Bigelow foi o primeiro ou o quinquagésimo Oscar ganho por uma mulher - nem a Bigelow nem o filme dela são melhores ou piores por caus@ disso (filme algum e realizador algum é melhor ou pior por causa da porcaria dum Oscar). O mérito dela, e o mérito do filme dela, vão muito para além duma questão contabilística. Foi isto que eu quis destacar no meu texto, com a ironia que achei por bem. A pensar em quê? Justamente, em raciocínios como o do Sr. Paulo Côrte-Real, que transformam uma preocupação nobre num assunto de estatística cega e burocracia controleira. Não sabia era que, dessa vaga nuvem contra a qual vagamente investi@, me ia descer um exemplar tão perfeito.
E não, "não há que choramingar". Podia imediatamente ter sido estabelecido um sistema de cotas. Para cada DeMille uma Dorothy Arzner. Para cada Man Ray uma Germ@ine Dulac. Para cada Fuller uma Ida Lupino. Para cada Straub uma Danièle Huillet (bom, aqui alegre-se o Sr. Paulo Côrte-Real: houve mesmo uma Huillet para cada Straub). Mas não foi assim e contra isso nada a fazer: "é a vida", é a História. Claro, dou de barato: com um rácio perfeito de homens e mulheres realizador@s tudo teria sido muito melhor. Mas mesmo com uma proporção desigual já foi muito bom. Não há, pois, que choramingar. Espreite um Griffith-Gish (por exemplo o Broken Blossoms), se o silêncio não o incomodar em dem@sia, e perceba o que eu quis dizer. (OK, mau exemplo: era muito capaz de não ver outra coisa senão "os esteréotipos raciais no cinema de Hollywood").
A ironia disto é que aposto singelo contr@ dobrado que o Sr. Paulo Côrte-Real nunca tinha prestado atenção à Bigelow até há umas semanas atrás. Nem sei se viu o Hurt Locker (quer dizer, o filme teve uns míseros 15 000 espectadores em Portugal, quais são as odds de o Sr. Paulo Côrte-Real ter sido um deles? 1/700? Bom, não sou eu o especialista em rácios). Eu, sem esperar pelo momento da mobilização geral, vi, gostei, e elogiei-o. Como vi, gostei e elogiei outros filmes da Bigelow, de há vários anos para cá. Não contribuí nada para o Oscar da Bigelow (isto hoje em di@ tem que se explicar tudo, que a má fé espreita todas as oportunidades), mas garanto-lhe uma coisa: o Oscar da Bigelow deve-se mais aos que andam, há anos (há décadas), a dizer bem dos filmes dela por causa dos filmes dela do que aos observadores de rácios e zeladores de cotas. Por muito que estes se tenham - por umas semanas, até à próxima "causa" - apropriado dela. Até por isso, é imperioso devolvê-la aos gost@m dela pelo que ela é e pelo que ela faz, e resgatá-la das garras dos que apenas se interessam pelo que ela circunstancialmente representa. Este é o meu trabalho e pela minha parte, job done.
Calafrio: e se me tem dado para escrever que preferia o oscar para o Tar@ntino? Como é que eu explicava - como é que o Sr. Paulo Côrte-Real entendia - que estava a falar de filmes?