Friday, October 16, 2009

De Velázquez a Magritte

Ah, não, justamente, não: não há (ou não devia haver) apenas "duas leituras" para o caso Polanski, e se houvesse só duas Deus nos livre de ficarmos reduzidos às hipóteses avançadas pelo sr. João Sousa André. Em lado algum escrevi que Polanski ou outro "artista" qualquer deva"ter liberdade para cometer as loucuras que quiser", o meu texto quase nem fala de Polanski e é sobretudo uma reacção aos discursos vulgares sobre o caso - como precisamente, e a posteriori, o do Sr. André. Apesar de mostrar logo de entrada que não percebeu patavina do que leu, o Sr. André não se coibe de achar que ficou informado sobre mim e "sobre os meus conceitos morais". O tanas é que ficou, e só espero que o Sr. André nunca venha a desempenhar uma profissão ou a ocupar um cargo que o deixem em posição de agir consoante a impressão que tem dos "conceitos morais" dos outros. Por meu lado, apesar de o seu post dar algumas indicações (ficamos a saber que o Sr. André, ele sim, está do lado dos bons contra os degenerados), nem dando-me ao trabalho de lhe ir ler o blog todo (livra) me atreveria a tirar conclusões sobre os seus "conceitos morais". A única coisa que está à vista são, digamos, os seus "conceitos intelectuais", e para concluir sobre eles basta um post: são pobres.

O meu post não era sobre o caso Polanski, mas sobre o registo e o vocabulário das conversas sobre o caso Polanski. Sobre o moralismo justiceiro e sobre os lugares-comuns que o Sr. André, à evidência, tanto aprecia. Limitava-se a insistir num ponto em que a semântica e a realidade vivem um conflito: nem todas as meninas de 13 anos são "meninas de 13 anos". Ou de 14, se o sr. André fizer muita questão na diferenciação. E nalguns sítios, como em Hollywood, a probabilidade de se encontrar meninas de 13 anos que não são "meninas de 13 anos" é maior do que noutros. Relatava um episódio que, enfim, o sugere com alguma veemência. Ceci n'est (toujours) pas une pipe, passe o cachimbo eventualmente inapropriado neste contexto. Até eu, que não me dou com meninas de 13 anos desde o tempo em que eu próprio tinha 13 anos, me lembro bem de algumas meninas (duas ou três, OK, mas isto era em Benfica, não em Hollywood) a que nunca me ocorreria chamar "meninas". Ainda assim, e com o arrojo típico do justiceiro de teclado, o Sr. André não se coibe de fazer insinuações desagradáveis, e se fizéssemos muita questão disso, à beirinha do difamatório. Diz que "não me entregaria nenhuma menina de 13 anos para tomar conta", e passando por cima da intenção ofensiva até lhe agradeço: primeiro, porque não vejo por que carga de água teria eu que "tomar conta" das meninas que o Sr. André tem para "entregar"; e segundo, porque genericamente a minha paciência para aturar crianças e adolescentes é apenas um bocadinho maior do que a que consigo dedicar a gente que não sabe ler nem sabe pensar.

O que me verdadeiramente me preocupa nisto tudo é saber se voltará a ser possível ver um filme de Polanski (e apesar de tudo há uma meia-dúzia que vale a pena ver de vez em quando) sem se ser incomodado por gente aos berros e com tabuletas à porta dos cinemas, a ameaçar pegar fogo a isto e aquilo e não sei quê. É uma perspectiva francamente maçadora.


Friday, October 09, 2009

Polanski Babylon

Falar do "affair Polanski" com argumentos de ordem moral é uma perda de tempo. Há muito que a coisa se tornou num emaranhado jurídico, abstracto, puramente amoral. Tão amoral como Hollywood, lugar onde (como num filme de Hitchcock) "culpados" e "inocentes" trocam de posições com uma rapidez desconcertante.

Uma ninfeta em casa de Jack Nicholson a deixar-se fotografar por Polanski. Certo. Hollywood mudou muito nos anos 70, mas a "nova" não rompeu com todas as tradições da "velha". Ninfetas e lolitas desde sempre pulularam por Hollywood, e sempre encontraram quem as apreciasse. Raoul Walsh contou uma história genial. Certo dia, algures nos anos 20, uma miuda de 14 ou 15 anos que tinha estado a trabalhar num grande estúdio hollywoodiano apareceu grávida em casa. A mãe não lhe conseguiu arrancar uma palavra sobre quem tinha sido o responsável, e telefonou para a polícia. Hollywood, nesses tempos, era uma grande família, e a polícia fazia parte dela. Pelo que, antes de seguir para o estúdio, o agente encarregue das averiguações telefonou a avisar: "vamos aí fazer perguntas sobre uma miuda de 14 anos grávida, é bom que não encontremos ninguém que tenha alguma história com miudas de 14 anos para contar". O aviso passou de ouvido em ouvido e, segundo a história de Walsh, o estúdio ficou vazio em minutos (e o primeiro a desaparecer, ainda no relato de Walsh, foi Chaplin).

Digam o que quiserem sobre Polanski, mas poupem o chavão da "menina de 13 anos". Em Hollywood nunca houve "meninas". E se houve não eram "meninas", e se eram "meninas" não estavam em Hollywood.