Ah, não, justamente, não: não há (ou não devia haver) apenas "duas leituras" para o caso Polanski, e se houvesse só duas Deus nos livre de ficarmos reduzidos às hipóteses avançadas pelo sr. João Sousa André. Em lado algum escrevi que Polanski ou outro "artista" qualquer deva"ter liberdade para cometer as loucuras que quiser", o meu texto quase nem fala de Polanski e é sobretudo uma reacção aos discursos vulgares sobre o caso - como precisamente, e a posteriori, o do Sr. André. Apesar de mostrar logo de entrada que não percebeu patavina do que leu, o Sr. André não se coibe de achar que ficou informado sobre mim e "sobre os meus conceitos morais". O tanas é que ficou, e só espero que o Sr. André nunca venha a desempenhar uma profissão ou a ocupar um cargo que o deixem em posição de agir consoante a impressão que tem dos "conceitos morais" dos outros. Por meu lado, apesar de o seu post dar algumas indicações (ficamos a saber que o Sr. André, ele sim, está do lado dos bons contra os degenerados), nem dando-me ao trabalho de lhe ir ler o blog todo (livra) me atreveria a tirar conclusões sobre os seus "conceitos morais". A única coisa que está à vista são, digamos, os seus "conceitos intelectuais", e para concluir sobre eles basta um post: são pobres.
O meu post não era sobre o caso Polanski, mas sobre o registo e o vocabulário das conversas sobre o caso Polanski. Sobre o moralismo justiceiro e sobre os lugares-comuns que o Sr. André, à evidência, tanto aprecia. Limitava-se a insistir num ponto em que a semântica e a realidade vivem um conflito: nem todas as meninas de 13 anos são "meninas de 13 anos". Ou de 14, se o sr. André fizer muita questão na diferenciação. E nalguns sítios, como em Hollywood, a probabilidade de se encontrar meninas de 13 anos que não são "meninas de 13 anos" é maior do que noutros. Relatava um episódio que, enfim, o sugere com alguma veemência. Ceci n'est (toujours) pas une pipe, passe o cachimbo eventualmente inapropriado neste contexto. Até eu, que não me dou com meninas de 13 anos desde o tempo em que eu próprio tinha 13 anos, me lembro bem de algumas meninas (duas ou três, OK, mas isto era em Benfica, não em Hollywood) a que nunca me ocorreria chamar "meninas". Ainda assim, e com o arrojo típico do justiceiro de teclado, o Sr. André não se coibe de fazer insinuações desagradáveis, e se fizéssemos muita questão disso, à beirinha do difamatório. Diz que "não me entregaria nenhuma menina de 13 anos para tomar conta", e passando por cima da intenção ofensiva até lhe agradeço: primeiro, porque não vejo por que carga de água teria eu que "tomar conta" das meninas que o Sr. André tem para "entregar"; e segundo, porque genericamente a minha paciência para aturar crianças e adolescentes é apenas um bocadinho maior do que a que consigo dedicar a gente que não sabe ler nem sabe pensar.
O que me verdadeiramente me preocupa nisto tudo é saber se voltará a ser possível ver um filme de Polanski (e apesar de tudo há uma meia-dúzia que vale a pena ver de vez em quando) sem se ser incomodado por gente aos berros e com tabuletas à porta dos cinemas, a ameaçar pegar fogo a isto e aquilo e não sei quê. É uma perspectiva francamente maçadora.