Thursday, February 26, 2009

Mickey Rourke rises again, and he's my brother


Chamem-lhe o que quiserem, até podem dizer que é uma "merda", a ver se eu me ralo. Mas, por favor, não digam que The Wrestler é "mero entretenimento". Há coisas que doem.

Wednesday, February 25, 2009

Viagem à origem do mundo

1) Vejamos os acontecimentos de Braga pelo lado positivo: um quadro de 1860 ainda é visto como potenciador de "desordem pública". Isto é maravilhoso.

2) O noticiário da SIC que abria com o relato do "affaire Courbet" (ou "Cubére", na pronúncia do locutor) no tom ligeiramente pasmado de quem não sabe muito bem de que lado está a razão (mais ou menos: "a censura, com certeza, coisa má, mas aquele quadro, francamente...") terminava com imagens "imperdíveis" (sic locutor da SIC) do Carnaval do Rio, mulheres não muito mais vestidas do que o modelo do quadro de Courbet mas, ao contrário dele, a mexerem pernas e ancas, e a fazerem, com os dedinhos, sinais de chamada. Aparentemente, isto não levantou nenhuma questão, nem à PSP.

3) Talvez o próximo filme de Catherine Breillat que se estrear em Portugal (se, pelo andar da carruagem, tão pouco propicia a "pseudo-intelectualices para cinco espectadores", mais algum filme de Catherine Breillat estrear em Portugal) tenha outro eco. O que também seria maravilhoso.

Message to Casanova

Rogério, experimenta Negative Space: Manny Farber on the Movies. Há na Amazon.

Monday, February 23, 2009

Resolução para 2009

Usar fato e gravata, barbear-me todos os dias, e dizer bem dos filmes todos.

(a propósito dos posts linkados neste post)

(o mundo que a internet promete, as I said)

Monday, February 09, 2009

Visita ao túmulo de Yasujiro Ozu (de comboio, apropriadamente)

Visita ao túmulo de Mikio Naruse

O Clube Merda

Enquanto fazia o cut & paste para o post anterior, e como o site dos Inrockuptibles indexa os textos por realizador (ou seja, a página referente a Slumdog tem visíveis as frases iniciais dos textos sobre outros filmes de Danny Boyle), reparei que, há dez anos atrás, Serge Kaganski começou assim a sua crítica a The Beach: "Vacance au Club Merde. Annoncé comme un événement, La Plage est un monument de bêtise ethnocentriste, de suffisance colonialiste, de narcissisme branché et de jeunisme publicitaire". Não pude evitar rir-me, claro. Para além de ser um trocadilho excelente, sugere que há em qualquer coisa em Danny Boyle que puxa pela metáfora olfactiva e pelo aparte excrementício.
Infelizmente não há comentários à vista, é-me impossível dar conta do score.

Morde-te de inveja ò Ostria

Apesar da télévision vulgaire pour gogos e do arnaqueur, o pobre Vincent Ostria não conseguiu mais do que dez comentários a insultá-lo. Isto vai de goleada, mon gars.

Sunday, February 08, 2009

O mundo que a internet promete

Tenho tido mais que fazer e mais em que pensar (como a mira técnica pretendia exprimir), e estava hesitante sobre se devia dizer alguma coisa sobre isto - entendendo por isto aquele vendaval de comentários perfeitamente acéfalos. O texto do João Lopes, que maioritariamente subscrevo e cuja solidariedade agradeço, dá-me o lamiré ao mesmo tempo que me dispensa de reiterar as coisas elementares que ele já escreveu. Coisas elementares no sentido nobre do termo; e tão elementares que eu só posso ficar surpreendido com a admirável paciência que o João tem para as repetir periodicamente, e sem que se note, da parte dele, mais do que uma pontinha de exasperação.

Mas quanto àquilo, presumo que de algum modo me devesse sentir intimidado. Trata-se de uma turba, na acepção westerniana do termo, e quanto mais são menos se aguentam nas estribeiras. O tipo de coisas que, como tantos filmes ensinam (a propósito, conhecem o Fury de Fritz Lang? ou também é uma referência "deslocada no tempo"?), costuma acabar com um fulano pendurado na ponta de uma corda para gáudio de uma multidão eufórica. Mas não, não me sinto intimidado. Se fosse aqui há uns anos, talvez; mas estou perto de chegar aos 40, já sou um homenzinho, e é preciso mais para me intimidar do que uma torrente de insultos mal escritos e mal pensados. Se alguma coisa aquilo me faz sentir é triste. Trinta e tal pessoas e ninguém com quem falar: é triste, um tipo sente-se um bocado sozinho. Mas não sejam por isso - conheço bem a solidão, somos amigos, tratamo-nos por tu. Nada de dramas.

Poder-se-á argumentar que aquelas duas frases finais do meu texto são muito violentas. Pretendiam sê-lo. Uma violência que me parece neutralizada pela ironia que lhes subjaz, mantendo uma dimensão apaixonadamente provocatória. Um efeito de estilo um pouco borderline - mas se acham intolerável então por favor nunca vão ler alguém como o Skorecki; é que a indignação podia dar-vos uma síncope. Usei, uso, usarei violência nos meus textos sempre que quiser.

Seja como for, essa frase (ou qualquer outra no meu texto) é absolutamente irrelevante para aquele chorrilho de disparates. A questão não vem de pormenores, vem da ideia geral do texto: uma apreciação bastante negativa de um filme, Slumdog Millionaire, que é um grande sucesso popular à escala planetária. Eventualmente também um sucesso crítico (albeit mais moderado), mas isto é irrelevante. Porque o fenómeno, que se repete, é este: o gosto maioritário tem péssima tolerância à dissensão. Se um fulano (um crítico de cinema ou um carpinteiro ou um sacristão) diz mal de um filme de "que toda a gente gosta" (e que tem muitos prémios e muitas nomeações e uma "causa social" e sei lá mais o quê) isso só pode significar que existe nele alguma intrínseca perversão. O gosto maioritário não deixa, lá por ser maioritário, de ansiar por quem o legitime - e quando não se vê legitimado, escarra. Há uma máxima godardiana (peço desculpa por tão pseudo-intelectual referência) expressa em mais do que um filme dele: "faz parte da regra querer a morte da excepção". É justamente disto que se trata. E transcende em muito a crítica, a de cinema ou outra qualquer.

Porque se o desejo exterminador da turba por enquanto só se manifesta figuradamente, virá o dia em que os directores e editores, de jornais, de revistas, de "sites", se sentirão por sua vez intimidados. Mas agora temos aqui tipos que irritam os leitores? A crítica, a de cinema ou outra qualquer, transformar-se-á num simples eco do rumor geral, na mera confirmação de consensos pré-estabelecidos. Numa grande celebração colectiva: as mesmas coisas para as mesmas pessoas, sem perigo de encontrar essa incómoda rugosidade que é uma opinião discordante.

É muito bonito o mundo que a internet promete.

Tuesday, February 03, 2009