Thursday, January 22, 2009

The saints keep marching in

Por falar em canonizações, o mais recente santo é obviamente Albert Serra. É o que o último número dos Cahiers faz, especialmente o artigo de Emmanuel Burdeau (que acaba a associar "Serra et Costa"). Gostei muito de Honor de Caballeria, gosto muito de Cant dels Ocells (vai estrear em Fevereiro se tudo correr conforme previsto), ainda não me cansei de defender um e outro. Claro, é bem possível que chegue o dia em que não goste de um filme de Serra, e haverá então grandes discussões: "como é possível?", "tss, tss, tss", "estes críticos, francamente".
Mas por enquanto, e preservando sempre o direito à apostasia, eis algo em que I'm gladly in.

Out #2

O sitemeter disparou, à conta das repreensõezinhas. De vez em quando faz bem mandar uns pratos ao chão, fazer barulho, exprimir a irritação com violência, ensaiar o pequeno exercise in anger. Ou são coisas que só são boas para "os blogues"?

Wednesday, January 21, 2009

Out

E Paulhan pega no exemplo de livros que, na sua época, foram muito mal acolhidos (…) enquanto a propósito de outros ninguém se zanga, e pelo contrário toda a gente está de acordo para dizer quão bem escritos estão, e tão agradáveis de ler, mas depois, passados seis meses, caíram no total esquecimento.

(...) Portanto, o que é que fazia com que, imediatamente, os críticos, mesmo se diziam que Baudelaire era um impostor, etc., se encarniçassem justamente a propósito dele, e não sobre Fulano ou Beltrano cujos nomes são hoje completamente ignorados? Esta é a verdadeira questão de Paulhan: o que é que faz existir uma espécie de consenso, por vezes muito rapidamente gerado, por vezes imediatamente?

(Jacques Rivette)


Prossegue em bom ritmo a canonização de David Fincher. Talvez inevitavelmente, acontece com o pior e mais lacrimejante dos seus filmes, o mais cheio de gordura visual e sentimental (aconteceu o mesmo com Tim Burton e Big Fish). Bem longe da ambiguidade intrigante, das zonas de sombra e de não-explicado, de Seven, de Fight Club, de Zodiac, filmes que tratavam a psicologia a bisturi e, mais importante, pareciam conter dentro deles o seu próprio antídoto, as suas próprias possibilidades de dissensão. Agora trocadas pela contemplação, genuflectida e uníssona, da “emoção”. It’s the tearjerk, stupid. Stroheim lixou-se nos anos vinte, hoje lixava-se outra vez.

Não me estou a meter com o gosto dos outros (nunca me meti, e se alguma vez pensaram que sim entenderam-me mal). Mas estes consensos instantâneos, transformados em celebração colectiva, em cerimonial de acolhimento ao panteão dos “grandes cineastas”, deixam-me sempre uma impressão desagradável. Muito francamente, I’m glad I’m out of it.

Monday, January 19, 2009

Kathleen Byron 1923-2009


Não sei se são mais admiráveis os actores que espalharam a sua imortalidade por cinquenta filmes se aqueles que a concentraram apenas num. Como Kathleen Byron, a freira alucinada do Black Narcissus.

Ainda os americanos em Janeiro

Esqueci-me de dizer (post abaixo) que também gostei do Woody Allen, Vicky Christina Barcelona (o título dava-me um certo medo). Vai para Barcelona, pega e carrega em esteréotipos de uma “latinidade mediterrânica”, sim senhor, mas usa-os para chegar a um sentimento muito outonal, muito nórdico, muito chekhoviano. Não me parece proeza a desmerecer.

Para dizer a verdade, desconfio que começo a preferir estes Woodys em série, perigosamente instalados à beira do abismo que dá para o anódino mas possuidores de uma gravidade silenciosa e secreta, aos seus canónicos, mas muito tagarelas e muito explicados, “grandes filmes”, Annie Hall, Manhattan, etc. Não sei em que categoria integrar um filme que vi há trinta mil anos e nunca mais revi, e que na altura me pareceu evidentemente a obra-prima de Woody: Stardust Memories.

Sunday, January 18, 2009

A mão, a mão

Enquanto me apedrejam (ide ver o Ipsilon online) por não gostar do Fincher (e vão enchendo os bolsos de calhaus para o Revolutionary Road, Cassavetes picado na Moulinex, 1,2,3, fácil de mastigar, a mim deixa-me com vontade de bife cheio de nervo), sempre posso dizer que (Clints à parte) o meu filme americano preferido de Janeiro (creio que ainda estreia este mês) foi a Valquíria de Bryan Singer. Já devem saber o que é, que a máquina não brinca e nos últimos dois anos foram periodicamente surgindo notícias do filme: uma reconstituição do July plot, com Tom Cruise no papel de Stauffenberg. Parece-me de longe o melhor filme de Singer, para cujos X-Men e Superman (e Kayser Soze) nunca tive muita paciência (embora, de certa maneira, se possa dizer que na Valquíria ainda estão os X-Men, o Superman e até o Kayser Soze), e Cruise, sem margem para sorrisos e caretas, tem o seu melhor papel desde o Kubrick.
Se me lembrei, dois posts abaixo, dos "heil hitlers" do Lubitsch foi por causa de uma cena (ou melhor, de um plano) do filme de Singer. O que Lubitsch destruiu pela irrisão e pela repetição, até que fosse uma lengalenga desprovida de reverberação, Singer destroi com uma imagem, física, imediata: o amputado Stauffenberg a fazer a saudação, mas em vez da mão estendida há apenas um coto. O "heil hitler" destruido "por dentro", por dentro da sua própria monstruosidade.
Não via um coto assim, tão ou mais expressivo que muitas mãos inteiras todas juntas, desde o final da Caça de Oliveira.
Uma boa ideia em 1963 é um boa ideia em 2009, e vice-versa. O resto importa pouco.
PS - Ainda não vi o van Sant.

Não há Tempo

Nas tintas para modernices e classicices. Uma boa ideia em 1920 é uma boa ideia em 2009. E vice-versa. O resto, como dizia o outro, são teorias.

Saturday, January 17, 2009

Heil myself

Em termos de destruição simbólica (quer dizer: de destruição de símbolos) não creio que se possa ir mais longe do que Lubitsch foi. Em 1942, for God's sake.

(Perante To Be Or Not To Be a questão é resistir à tentação de pensar que todo o humor posterior, e não só o cinematográfico, é apenas brincadeirinha, uns trocadilhos e uns apartes).

Les beaux cinéastes se rencontrent

"(…) mas deixe-me voltar a Sternberg. Foi em 1969, o ano da sua morte, tinha ele 75 anos, e era o presidente do júri do festival de Mannheim. Deu o prémio ao meu filme [Eika Katappa], os meus colegas ficaram furiosos: recompensar uma merda daquelas! Tinha feito a montagem num moviscópio, uma pequena máquina da Zeiss Ikon, com um ecran do tamanho de um maço de cigarros, e duas bobinas, sem motor, que tinham que ser rodadas à mão, e sem som. Montei directamente no original. E depois, na televisão, deram-me a possibilidade de montar o som. Ninguém acreditava que se pudesse fazer um filme assim, e quem é que acreditou? Josef von Sternberg, o mais exigente dos cineastas, com o seu cinema estilizado, estetizante ao extremo. Fiquei felicíssimo".
Werner Schroeter, em entrevista nos últimos Cahiers.
(Désolé, cher Werner, não gostei tanto de Nuit de Chien como queria gostar)

Friday, January 16, 2009

Saturday, January 10, 2009

On toughness

Devia ter uns 6 ou 7 anos quando vi Angels With Dirty Faces na televisão. Na altura, claro, não fixei o título. Identifiquei-o muito mais tarde (e ainda não acabei de identificar todos os filmes que vi na infância e que me deixaram gravadas no espírito imagens tão poderosas que nunca mais se apagaram). É um Michael Curtiz de 1938, um “gangster movie” de fundo social realista, como era típico da Warner Brothers dos anos 30. O protagonista era James Cagney, tão impressionante que me lembro de me ter perguntado ao meu pai o nome dele e de o ter fixado logo (Cagney deve ter sido o primeiro actor de outro tempo que conheci pelo nome; e a seguir, Bogart).

Identifiquei o filme mas nunca o revi. Nem sei bem se o quero rever, tenho medo que a revisão danifique a memória que tenho da derradeira cena, que a bem dizer foi a cena que a minha memória reteve. A história do filme é mais ou menos como se segue. Cagney é um “gangster” vindo da rua, um ídolo para os miúdos desmazelados dos bairros pobres de Nova Iorque, para todos os petty thieves que sonham com um carreira gloriosa no mundo do crime. No fim do filme era preso e condenado à morte, por execução na cadeira eléctrica. A cena final, tal como a lembro, começava quando alguém dizia a Cagney, já a caminho da execução, que se ele queria fazer alguma coisa pelos miúdos que o idolatravam não podia morrer nem como um “duro” nem como um “herói” nem como um “mártir”. Tinha que morrer como um qualquer desprotegido ser humano, apavorado com a morte iminente. Tinha que morrer a chorar, a espernear, a gritar pela mãe – para que se espalhasse pelas ruas de Nova Iorque que tinha morrido como um covarde, que tinha traído a imagem inexpugnável que fazia dele um ídolo para a miudagem ladra. Só destruindo a sua própria aura adquiriria a nobreza capaz de contribuir para desencorajar outros de seguirem uma vida que fatalmente acabaria ali, naquela mesma cadeira eléctrica.

E a câmara seguia então, num travelling para trás, o algemado Cagney, de rosto quase desfigurado pela crispação, pela tensão, pelo remoinho de pensamentos, no caminho para a sala de execuções. Ao chegar lá, a câmara ficava à porta. Entravam Cagney e os guardas e o plano era filmado da soleira da porta. Não se via a cadeira, apenas a sua sombra projectada na parede. Também deixava de se ver Cagney, a partir daí só uma voz fora de campo e depois outra sombra. No último momento essa voz desatava a berrar, a pedir clemência e piedade, a víamos a sua sombra a ser arrastada para a cadeira, a ser sentada e amarrada. Morria a contorcer-se, a chorar e a gritar pela mãe. The End.

Fiquei sempre a pensar que um “duro” é isto: alguém que consegue morrer como um covarde. São precisos tomates para isso.

Bem vindos a 2009. Dizem que vai ser duro.