Monday, August 21, 2006

Os piratas das críticas

Nunca imaginei que Miami Vice desse para tanta polémica. Ainda menos imaginei que a desse tendo por contraponto Os Piratas das Caraíbas – ver aqui: parece que um é “puro entretenimento” e tem um “ritmo frenético” e o outro, bem, o outro não. A “crítica” não reconhece isto, o que é um “drama” bem revelador do seu estado “acrítico”, ou, como aqui tragicamente se acentua, de um “caso extremo da mudança de funções mediadoras da crítica para a publicidade”. E o pior de tudo é que “até o Pedro Mexia” alinha nisto.

Ora bem. Não vejo grande interesse em discutir uma questão – a “dicotomia” Piratas / Miami Vice – que no essencial é uma questão de gosto onde cada um é livre de ficar com o que quiser e tirar bom proveito do que lhe apetecer. Muito menos uma discussão que se alimenta de “estrelas” em vez de argumentos; eu “estrelas” não discuto nem sei discutir, embora seja modesta e moderadamente confiante nas minhas capacidades para discutir filmes a partir do momento em que a argumentação deixe de ser aritmética. Podia dizer que, por acaso, praticamente tudo aquilo que é apontado como “defeito” de Miami Vice está entre o que de mais gosto no filme de Michael Mann – mas não só já o escrevi no sitio certo para o escrever como, suspeito, a conversa estaria condenada a ser de surdos.

Mais interessante é a dramática conclusão aqui extraída. Interessante sobretudo por ser suscitada por uma oposição entre “blockbusters”. O que vejo nas entrelinhas é: se os dois são “blockbusters” (ou seja, filmes “iguais”), por que razão um é bafejado pelos favores da “crítica” e o outro não? Os “blockbusters” não são, por natureza, todos maus? Assim sendo, a conclusão é lógica: ter um discurso elogioso sobre um deles configura um exemplo de “mudança de funções mediadoras da crítica para a publicidade”. E nem é preciso ver os filmes para chegar a tanto.

Tentar contrariar o preconceito subjacente a este modo de pensar seria, suspeito novamente, mais conversa de surdos. Com raríssimas excepções, a chamada “intelectualidade” portuguesa gosta de suspender os seus pergaminhos quando o assunto é cinema. Não é novo: “Outro facto triste e grave foram as notadas ausências dos intelectuais alfacinhas, tudo gente de ir às fitas Sábado à noite, com intervalo p’ró pipi e beata. É conhecido o cultivado desprezo aliado à mais pasmosa ignorância que 99,9 % das prestimosas figuras têm por tudo o que seja cinema (e logo então o americano!). Sem querermos tirar a ninguém o direito de ser como é, convém esclarecer que essa atitude se torna, per forze, solidária com o miserável e escandaloso estado em que se encontra o cinema português, retirando, obviamente, a sua quota-parte de influência na continuidade do jovem cinema, já pressentido através das qualidades inegáveis de Paulo Rocha e Fernando Lopes, admiradores fervorosos do cinema americano”. Isto escrevia-se no Tempo e o Modo, em 1965, a propósito da primeira grande retrospectiva de cinema americano feita em Portugal. Hoje, mutatis mutandis, poder-se-ia escrever mais ou menos o mesmo. Com a diferença de que o “cultivado desprezo por tudo o que seja cinema” passou a abrir uma relativa excepção (?) para o americano. O resto nem existe. Não sabem, não conhecem, estão-se nas tintas. Uma prova? Coexiste em cartaz com os dois “blockbusters” da discórdia (e com, no mínimo, dez vezes menos cópias do que eles) um filme de Philippe Garrel, Os Amantes Regulares, em tudo e por tudo (origem, modelo de produção, estética, etc) o oposto de Miami Vice e de Piratas das Caraíbas. Alguns críticos, e visto que tudo se parece resumir a isto, deram-lhe tantas estrelinhas como a Miami Vice. Outros, de pleno direito, deram menos. Para quem se incomoda com elogios a “blockbusters” fúteis este era o filme ideal. Mas alguém sabe quem é Garrel? Alguém o vai ver? Alguém dá, sequer, por ele? Não. Talvez não tenha anúncios na televisão, e tem certamente menos em jornais e revistas. É uma presença menos “visível”. Nunca serviria para dramáticas reflexões sobre o “estado da crítica”, que invariavelmente tomam por pretexto directo a recepção a “blockbusters” e a filmes com grande exposição mediática. Pudera: são estes os filmes que são vistos. Uma alegre ignorância que não coíbe ninguém de ter as suas ideias definitivas sobre “a crítica de cinema” – único tipo de crítica sobre o qual toda a gente se sente autorizada a dissertar mesmo quando do seu objecto tem um desconhecimento que nalguns casos é até orgulhosamente exibido. E único caso (julgo que na crítica literária, por exemplo, isto não acontece) em que um desacordo de opinião pontual ou continuado com um crítico (ou com “os críticos”) serve para pôr em causa toda a “crítica”. Mesmo quando se vai ao cinema mais por causa da publicidade do que da crítica.

Eu acho que a “crítica” com aspas e a crítica sem aspas podem ser discutidas, como tudo o resto, e muito para além de questões de gosto pessoal, que são (como isto custa a entrar, meu Deus) as menos relevantes. Ao autor deste post incomoda a “mudança de funções mediadoras da crítica para a publicidade”; a mim também, mas incomoda-me mais a maneira como a publicidade tomou conta do espaço informativo sobre cinema (por exemplo, na televisão: O Superhomem teve direito a vastos destaques “informativos” no dia em que estreou; o Garrel, estreado no mesmo dia, não foi “notícia”). Se nenhuma publicidade é crítica, é leviano concluir que toda a crítica é publicidade. Há pessoas que sabem o que fazem e acreditam minimamente nisso. Um pouco de atenção – à crítica e ao seu objecto – para tentar não falar de cor. Acho que não é pedir muito.

Espero que até o Pedro Mexia concorde com isto.