Friday, May 26, 2006

Odalisca (ou: Ode a Liz)














Demorei algum tempo a perceber quem era, e sobretudo o que fora, Elizabeth Taylor. Miúdo, ouvia adultos falarem dela, deslumbrados; mas via-a, nas revistas, na televisão, e só via uma matrona de ar atarantado, não especialmente bonita, não especialmente inteligente, numa imagem que em nada me explicava, e em nada me justificava, toda a atenção que lhe davam.

Mais tarde, o mistério esclareceu-se. Vi-a em Suddenly Last Summer, na pele duma rapariga que todos dão por louca e ninfomaníaca, Liz magistral na gestão duma sensualidade desequilibrada, que nunca sabemos se, no plano seguinte, se vai cerrar ou explodir. Já era, nessa altura, a cara chapada de Cleópatra, que efectivamente veio a ser uns anos mais tarde para o mesmo Mankiewicz deste Tennesse Williams film, dilacerada entre o desejo e o estatuto, entre o trono e o santo Burton, o mais belo alcoólico da história (três garrafas de whisky por dia no mínimo), imortalizado desde 1957 e Bitter Victory (le plus beau des films, digo eu, ce n’est pas du cinéma, c’est mieux que le cinéma dizia Godard, não que me esteja a equivaler)

E vi-a em A Place in the Sun (Dreiser’s An American Tragedy para os meus amigos literatos), esse milagre irrepetível na obra dum realizador, George Stevens, que antes e depois só fez filmes muito chatos ou, num dia bom, um bocado chatos, milagre para o qual um dia Godard (oui, ele again) julgou ter descoberto a explicação (que nunca me convenceu, milagres nunca têm só uma explicação). Toda tremor e toda clamor, carnalidade (la poitrine la plus franche de toute Hollywood dizia alguém ou então inventei eu) e sensualidade (os olhos, os olhos: nunca são corpo, são espírito), Liz era a medium entre o lugar do sol e o lugar do espectador. Mediava, irradiava, cegava.

Depois tudo isto acabou. Lá para finais dos anos 60, em pleno casa/descasa com o santo Burton, foi raptada por extra-terrestres e sujeita a inconfessáveis experiências. Devolveram-na à terra toda esfarrapada. Tornou-se amiga de Michael Jackson, que sofreu o mesmo quando era só um miudito preto. Não sabiam disto?